Minha alma escorre como em um rio de palavras. Sou uma metáfora que ressoa como um gemido de uma Fênix em pedaços. Há uma chama que consome minha imagem, meu reflexo e meu aroma. Estou perdido, sem memória possivel, desaparecido e pulsando. Não há mais sóis nem templos de ilusão. Existo como um EU, que se reconstroi entre cacos e silêncio.
Sexta-feira, Agosto 20, 2004
O SUÍCIDA E A LUVA
Quando vejo minha imagem no espelho, acorrentada, sinto um calafrio. As mãos tremem a gaveta repleta dos cacos da máscara de cera. A realidade é este medo de ser o ilusório ao despertar da maquiagem. Ouço o som rangedor dos armários respirando memórias mortas. O peso dos sermões dos padres jesuítas. O quarto mandamento como símbolo de minha prisão introspectiva. Como posso amar o quê, se sou apenas covardia?! Os nós atados na estrutura do teto. Ainda não, mas sentindo dor insuportável. Se gritar, serei jacobino ou insano. Sou apenas paralítico e lento nos reflexos. Talvez o sentido seja do orvalho caindo de meus olhos. Os pedaços de minhas mãos e despedida. Um prazer sem forma de fazer-se sentido, talvez vivo nesta dor sem cortes. Tanta tensão nos ombros e nas cordas vocais. Acorrentado no espelho negro, sem sinais de incêndio. Desejo de terrorista ou iconoclasta, mas não sobreviveria ao suspiro de alívio. O corpo amarrado aos céus, sem sonhos de santidade. Rezai por minha alma, que dorme no purgatório dos corpos infantis. As mãos partidas e perfuradas com estacas de prata. O silêncio e a solidão de um monastério. Ser estéril, como planta desfolhada em eterno solstício branco. As lágrimas são uma única chama de vela, acesa no princípio do
Sabath. Cânticos amanhecidos na pãozeira velha, atrás dos pratos de alumínio. As canetas de esmalte branco, como infância vista apenas em filmes de raízes. Vivi apenas nas colunas de concreto e brita. O pó contrariando as mucosas encarnadas. Dê-me o sossego dos elefantes, mesmo que extraindo-me o marfim. Um anjo acorrentado no teto. Meus pés tocando o ar. Há sangue escorrendo das narinas, como único símbolo sacro de vida e pecado. A razão na ponta dos dedos, imersos em mel de abelhas fugitivas. Deram-me o colapso, mas esqueceram do incenso. Minha caveira nascerá fora dos muros. Somente assim, relegado ao anonimato, teria liberdade para correr sem sombras à vista. Há Sol à pino, entretanto, e os fetos nascem das sementes dicotiledônias. Amanheço sem saber meu paradeiro, mas ouço um solo triste de Tchaikovski. Apenas eu, o violino e uma luva a segurar-me o silêncio. Uma íntima cumplicidade atrás das filas de assentos desertos. Um violino ou uma viola, entre o trágico e o nostálgico. O melancólico som dos passos no tablado. Os círculos atropelando o tremor dos braços. Sem grito ainda, mas entrelinha. Ser livre é deixar-se morrer dentro de um cubo de metro quadrado. Por quem? Pela túnica mão visível no aceno. E caio.
(L. F. Calaça | 19/08/2004)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 12:23 AM Comments:
Domingo, Agosto 15, 2004
O MASTURBADOR
Sindrome da Impossibilidade do Toque
Descobri minha deficiência. Já antes desconfiava de sua presença, mas agora é uma certeza. Vejo as pessoas sentadas no ônibus. Todas são assim, se repelem, buscam a mais sutil distância que garanta, no entanto, a ausência de tato entre os corpos. Olho indignado, bem como àquele eterno silêncio cúmplice, mas não serei hipócrita. Também comungo deste mal e, em mim, não se trata de algo meramente circunstancial. O TOQUE ME OFENDE!
Talvez tudo tenha começado quando descobri as palavras impressas em papel áspero. Apenas a imaginação era-me suficiente alimento das emoções. Agora, aceno com a mão, à distância, para superar a necessidade do abraço ou do beijo. O outro fere minha dignidade, ou, diria melhor, minha autopreservação. O toque é insuportável!
Digo isso e percebo que o meu próprio sexo é uma violência. Uma violência reflexiva, tendo em vista que sou um masturbador. Não tenho vergonha em dizê-lo. A impossibilidade do toque me fez assim. Mas pratico uma violência, não um ato de prazer e extasie. Se bem que é inconsciente, ou instintivo. Vejo-me psicologicamente transtornado, mas sou uma fixação narcisista. E, além de tudo, sou uma ficção erotizada de mim mesmo. Imagino-me, neste instante, como um autoflagelador, mas, pensando bem, não é verdade. Tudo é uma questão de ponto de vista. Seja no banco de um ônibus, ansiando pelo toque desconhecido, indignadamente, seja na presença concreta da possibilidade do toque próximo, repulsivamente. É o que me torna paradoxal.
A imagem de um eremita povoa minha cabeça. Em conseqüência indefinida, vejo a cabeça solta no espaço e o corpo inerte num canto. A cabeça sobre um pilar. Os olhos circulando sobre a cena que não existe. Uma cama flutuando no espaço e os dedos tamborilando no piso. A imperfeita noção do juízo em paredes de veludo verde. Pelugens nas narinas abertas para a passagem do suspiro de dor. O sexo latejando de dor. A pele num sentido urticante. O avesso do sonambulismo. O simbolismo de uma inconformidade. A seqüência transversa de um polígono. Paranóia performática. A quem engano, se o fato é ser estático? O fato é estar suspenso por fios frouxos, ancorado num suporte cilíndrico e as pálpebras baixas. O veludo, na verdade, é limo crescido sobre o epitélio. E as raízes que surgem do asfalto. Uma ilusão autobiográfica e referencial. Eu personifico meus tormentos e os transformo em matéria ocular. Todos são cúmplices da impossibilidade do toque, pois quem me entende é estéril. Os outros... os outros não se arrastam como camundongos, pois são normais e inconscientes. A cabeça sem os membros, sem os órgãos, é adorno de cristaleira de madeira nobre. Os bustos dos filósofos metafísicos e o dilema de existir como carapaça. Um dia fui, talvez, casca de ovo. Entretanto grito no silêncio deste espanto.
(L. F. Calaça | 15/08/2004)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 11:18 PM Comments:
Sábado, Agosto 14, 2004
(nota retirada do
Caderno 2, Jornal
A TARDE, 14 de agosto de 2004)
O SOM DOS PASSOS
Texto:
Samuel Beckett
Dia: 14 e 15 de agosto, 19hs
Local: Sala 5 da escola de Teatro da UFBA
End.: Rua Araújo Pinho, Canela
Ingresso: Entrada franca (Ingressos são distribuidos meia hora antes do espetáculo)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 8:59 PM Comments:
O LIVRO DE CABECEIRA
- Título original: The Pillow Book
- Direção: Peter Greenaway
- Direção de fotografia: Sacha Vierny
- Roteiro: Peter Greenaway, Sei Shonagon (escritora do livro)
- Produção: Kees Kasander
- País: França, UK, Netherlands
- Ano de produção: 1996
- Duração: 126 min.
Essa semana eu assisti este filme, minha irmã comprou o DVD por R$9,90 nas LOJAS AMERICANAS, e é fascinante pela sensibilidade estética que permeia todo o filme que, mais do que uma obra cinematografica, fortemente erótica, é um tributo às artes plasticas e à literatura, à capacidade de criação e expressão humana através das palavras e da imagem. Indico para todos os que queiram se emocionar e que se interessem pelo trágico.
Dou apenas uma dica: o filme, como a maioria das obras orientais (eu acho) não é caracterizado pela sua velocidade no desenrolar do enredo, sendo reflexivo, para não dizer lento, entretanto vale a pena para quem se interessa por filmes de arte.
Ah, não se prendam aos homens pelados, pelamordedeus! Não é o mais importante da história.
Para quem se interessar pela sinopse, leia a crítica "TRATE-ME COMO AS PÁGINAS DE UM LIVRO" de Bruno Barreto na página:
http://www.cinestese.unisinos.br/index.php?menu=cinemaver&codigo=110&nome_usuario=Bruno+Barreto
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 1:06 AM Comments:
Sábado, Agosto 07, 2004
ATRÁS DOS RASTROS
Tento segurar as coisas, mas elas caem. Contemplo minhas mãos mortas e as celas vazias que me envolvem. Guardado como em caixa de papelão. Todos os meus pensamentos desconexos e fundamentais. O nome expresso nos jornais de domingo: necrológio. Mas, apesar de tudo, ainda respiro. Isso invalida a idéia de relato póstumo. Posso ser apedrejado como pecador ou santo. Uso camisas com mangas amarradas nas costas. As mãos são uma ilusão, pois não as vejo. Mesmo assim, escorrem coisas de mim, cada vez mais distantes e radicais. Como erva daninha que nasce nos quintais. É, porém, meu espasmo de lucidez. Um pouco de desordem para desejar ser livre. Espero meu nome na última estação ferroviária, mas não tenho dinheiro para passagem. Vou sob os trilhos, talvez. Espero, como disse, alguém de nome confuso. Eu destoando do vazio. Estou repleto de figuras e imagens compulsivas. Olhares presos nas cortinas. Aquela boca vermelha recitando minha insígnia. As celas trazem consigo o eco. Ossos do eco. Ossos do absurdo. O que pode haver de mais fantástico. Um sorriso cauterizado. As cordas atreladas aos instrumentos sonoros. Eco não é voz propriamente dita. Refluxo intenso de um beco sem saída. Um rato pego pelo gato estrábico. Caminhar sobre passarelas noturnas é inesquecível: luzes brancas vindo e vermelhas partindo sob nossos pés descalços. Chove canivetes no espaço. Meu guarda-chuva é transparente e verte água. Assim as chuvas se ascendem, contra a lógica gravitacional da matéria. Um vôo entre paralelepípedos astrológicos. Visões antropomórficas me carregarão e me jogam no céu dormente, onde a Lua é uma pedra preciosa que surge ao mar de breu. Espero que a palavra faça sentido, mas é inevitável a incoerência. É vital, não ideal. Todos os corpos descarnados e os rins filtrando bílis. Na enxurrada nasce um quartzo transpassado por sinonímia. Seria fácil ser hiperbólico, mas me articulo com as pontas dos dedos da mão. Milhares de ossos maquinando o supremo desejo de ser. Mas chove, e eu derreto sem saber onde existo ou pereço.
(L. F. Calaça | 05/08/2004)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 2:48 AM Comments:
Terça-feira, Agosto 03, 2004
AUTOBIOGRAFIA DE UMA SOMBRA
Sempre existi, logo não há história pretérita à minha consciência. Posso parecer um tanto quanto presunçosa, mas esta é a única verdade universal. Sempre existi e povôo o entre-lugar. Aquele espaço intermediário da completa cegueira e a explosão óptica. Entretanto, quem me conhece sabe que não há um espaço definitivo, ou um tempo propriamente dito. Assim, minha existência é um axioma físico, mesmo que imaterial. Se bem que estou intimamente ligada à matéria. Sou indissociável, na verdade, à ela. Povôo todas as coisas, o que comprova o fato de eu fazer parte também do imaginário. A imagem existe no entre-lugar, pois não é, e nem deixa de ser. Tudo é representação, fusão de cores sobrepostas. Sobrevivo ao
blackout. Todas as coisas precisam de mim para se transformarem em objetivo sensível. Estão subordinadas ao meu desejo artístico. Jamais disse ser humilde. Sou, no entanto, realista. E, mesmo os surrealistas dependem dos entretons que transformo em atmosfera de sonho. Meus pigmentos envolvem a autoconsciência do ficcional. Mas, indo ao ponto que mais me fascina. Gravo minha marca nas penas dos corvos. Criaturas fantásticas são os corvos, que voam e choram, enquanto dançam as nuvens de fuligem. As brancas nuvens só reluzem no ar transparente porque me infiltro em sua estrutura frouxa de gotículas d'água em suspensão. A chuva é como o canto de minha expansão. Assim me reflito em mil espelhos fluidos e dou consistência a todas as formas. A chuva no asfalto é como um quadro que tinjo com as nebulosas de velhos cachimbos aristocráticos. Gosto, no entanto, das calças
jeans, onde me escondo no que resiste aos raios luminosos. Há! Deixei de dizer: estou em todos os mistérios. Entre as pernas das donzelas, sob os lençóis noturnos, nas caixas de segredo e nas palmas das mãos. Estou até naquilo que não existe propriamente, senão entre as conecções sinápticas de axônios e dendritos. Ao falar de mim mesma fico feliz, pois dou um pouco de ênfase às pontas das canetas de tinta azul. O que não invalida minha afinidade com as pretas, rubras e multicores. Sou até mesmo metafórica e experimental, como um ato dramático de um espetáculo contemporâneo. Todos os olhos se fixam extasiados com a minha carga expressiva. Um grito ecoando no salão. Uma lâmina ensangüentada e
O Beijo de Rodin. O brilho só reluz pois estou em evidência. Sou o próprio lume! Sou o fundamento da essência e da aparência. Estou nos olhos de quem penetra a brisa e desaparece sem rastro. Sou onisciente, quase uma divindade espiritual, mas existo e sou inquestionável. Minhas teses transcendem qualquer pensamento filosófico. Estou em todos os cantos e notas sonoras, pois vibro nas cordas flamejantes. Ainda assim, prefiro o vidro sem faces. Sou a prévia de um olhar e a perenização de uma fotografia genealógica. Ando amarrada a todos os sentidos.
(L. F. Calaça | 28/07/2004)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 1:25 AM Comments:
O SORRISO DE NARCISO
Os ponteiros do relógio barato atravessam meu crânio. Eu, a cama repleta de livros velhos, o olhar perdido no canto. As manchas de sangue enegrecidas na parede, rugosa e encardida. Mosquitos assassinados violentamente após degustação. O chão de azulejos frios e brilhantes. Onde estou, se escrevo coisas sem fim ou princípio?! Desprendido e prisioneiro de um gênio sem forma. É o outro que vive sem que eu saiba. Apenas o tédio, ou um amigo imaginário. O corpo decapitado de minhas ilusões amorfas. Minha incoerência e tudo à volta é assim. O relógio tem o som sufocado pela voz metálica, que sai do radinho de pilha. Também barato. Nas antigas lojas de 1,99 vendem felicidades descartáveis, vasilhas plásticas para geladeira. Minha realidade, porém, é este quarto. Tantas vezes digo isso que já me torno banal, desinteressante. Concordo plenamente com tudo, mas resisto como vírus encubado, latente. Um dia tomarei corpo, parasitário de mim mesmo, devorando as entranhas, mumificado. Serei herança paleontológica para outros hominídeos altamente cerebralizados. E as palavras serão registro de inteligência artificial. Paraíso entre branco e preto. Paraísos de vidro e concreto pré-fabricado. Um quadro claustrofóbico na parede. Arranha-céus dobrando -se sobre as estruturas ferruginosas. As costelas perfurando os órgãos pneumáticos. O coração saindo pela boca e os dedos gotejando sangue transparente. Aqui, entre os aquários gradeados, peixes sem pele ou escamas, cartilagens ou membranas. Fósseis congelados em fornalhas siberianas. O gelo queima a minha derme, deitado sobre os órgãos. Deitado sobre a matéria das cinzas do Vesúvio. O embrião sufocado pelo cordão umbilical. As mãos de tesoura esculpem anjos de plasma. O processo sem acusações e pena de morte. Cabeleira negra de nanquim. Tragam a cabeça, pois vivo o pesadelo acordado. Uma vela reflete meus olhos assombrados. A virgem suicida cai da torre de papel. Tantas línguas bárbaras confundidas com a víbora primitiva. Os ponteiros param neste tempo que apenas retrocede sobre si mesmo. Não há luz, nem batimentos cardíacos, nem calor transplantado de um corpo a outro. Fugiram os conceitos. A dança dos esqueletos fraturados e sem medula óssea. Alguém devorou as córneas. Perdi o equilíbrio e a imaginação. Foram os mosquitos antropófagos. Devorando, devorando meu corpo que se desfaz e vira pranto. O mar se perde neste quarto e goteja atrás do armário. Lençóis voam branco no espelho fantástico deste conto. Imagens sufocadas no canto dos lábios refletidos, gotejando alma.
(L. F. Calaça | 28/07/2004)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 1:16 AM Comments: